Na cirurgia de catarata, uma lente artificial sempre é implantada dentro do olho. Mas nem todas as lentes são iguais, e entender as diferenças ajuda a escolher com mais segurança e a evitar frustrações depois da cirurgia. Neste artigo, explico como funcionam as lentes para cirurgia de catarata (esférica, asférica, de foco estendido e trifocal), o que esperar de cada uma e como a escolha é feita.
Por que sempre é preciso implantar uma lente?
A catarata acontece quando o cristalino, a lente natural do olho, fica opaco e embaça a visão. Na cirurgia, esse cristalino é removido. Só que ele tem um papel fundamental: focar a luz para enxergarmos.
Sem uma lente no lugar, o olho ficaria com um grau altíssimo, algo como 15 a 20 graus de hipermetropia. Por isso, a lente intraocular é essencial, não opcional. Ela é definitiva: fica no olho para sempre, não precisa ser trocada, não causa rejeição e você não sente que ela está lá.
Se quiser conhecer o procedimento em detalhes, leia também Como é a Cirurgia de Catarata?
Lente esférica: a opção mais simples
A lente esférica é a versão mais básica das lentes intraoculares. Ela substitui o cristalino removido e trata a catarata, mas não tem o objetivo de corrigir o grau. O uso de óculos depois da cirurgia é esperado e comum.
O que é importante saber:
- Previsibilidade menor: é mais difícil prever exatamente como o grau vai ficar, e há mais chance de sobrar miopia, hipermetropia ou astigmatismo.
- Não corrige astigmatismo: quem já tem astigmatismo continua com ele depois da cirurgia.
- O grau muda: o grau após a cirurgia não tem relação com o de antes. Quem tem miopia e lê bem de perto sem óculos pode passar a precisar deles para perto.
- Opacidade da cápsula posterior: a cápsula que segura a lente pode ficar turva com o tempo, o que acontece em até 20 a 30% dos casos com lentes esféricas. O tratamento é um procedimento simples a laser no consultório, conhecido popularmente como limpeza da lente.
Como é escolhido o foco
Mesmo com a lente esférica, o foco é decidido com o paciente, de acordo com o estilo de vida:
- Os dois olhos para longe: para quem dirige muito ou precisa de boa visão à distância. Os óculos ficam para as atividades de perto, como ler e usar o celular.
- Os dois olhos para perto: mais raro, útil para quem faz trabalhos manuais ou lê o tempo todo. Os óculos ficam para olhar longe e caminhar.
- Monovisão: um olho para longe e o outro para perto. Reduz a dependência dos óculos em tarefas cotidianas, mas eles continuam necessários para atividades precisas.
Para quem é indicada: para quem não se importa em usar óculos depois da cirurgia.
Lente asférica: mais qualidade de visão e previsibilidade
A lente asférica, também chamada de asférica premium, é projetada para reduzir as aberrações esféricas, distorções que deixam a visão menos nítida, principalmente com pouca luz. O resultado é uma imagem com melhor contraste.
Em relação à esférica, ela também oferece:
- Maior previsibilidade no cálculo do grau, reduzindo a chance de sobrar grau significativo;
- Versão tórica, que corrige o astigmatismo;
- Maior profundidade de foco;
- Menor risco de opacidade da cápsula posterior do que a esférica.
Monovisão: um olho para longe, outro para perto
Com a lente asférica, podemos ajustar um olho para longe e o outro para perto. Isso reduz bastante o uso de óculos em atividades do dia a dia, como cozinhar, usar o celular ou trabalhar no computador. Para tarefas muito precisas, como ler letras minúsculas, enfiar a linha na agulha ou dirigir à noite em estradas escuras, os óculos ainda podem ser necessários.
Alguns pacientes ficam inseguros com essa ideia, mas a adaptação costuma ser rápida, geralmente em poucas semanas, embora algumas pessoas demorem um pouco mais. Muitos nem percebem qual olho está para qual distância. Uma parcela pequena sente desconforto; nesses casos, depois de pelo menos 6 meses, é possível reverter a diferença com uma cirurgia refrativa a laser.
A habilitação também pesa nessa decisão. Para carro e moto (categorias A e B), o Detran exige apenas um olho bom para longe. Já para a habilitação profissional (C e D), ele exige os dois olhos bons para longe, e por isso é comum colocarmos o foco dos dois olhos para longe nesses pacientes.
Para quem é indicada: para quem deseja reduzir o uso de óculos na maioria das atividades do dia a dia, entendendo que ainda pode precisar deles em situações específicas.
Lente de foco estendido: longe e meia distância
As lentes de foco estendido são uma evolução das lentes monofocais. Elas proporcionam boa visão para longe, inclusive em situações de pouca luz, e têm uma profundidade de foco maior, que estende a nitidez para a meia distância, como o computador, a cozinha ou o painel do carro. Também existem versões tóricas para quem tem astigmatismo.
Há duas formas principais de programar o foco:
- Os dois olhos para longe: para quem precisa de visão nítida à distância, como motoristas e atletas. Nesse caso, provavelmente serão necessários óculos para ler letras médias e pequenas.
- Monovisão: um olho mais para longe e o outro com um leve foco para perto. A profundidade de foco beneficia os dois olhos, mas os óculos ainda podem ser úteis para letras muito pequenas.
Uma alternativa para quem tem outras doenças nos olhos
Essas lentes são especialmente indicadas para quem tem contraindicação à trifocal, como portadores de doenças na retina, na córnea ou glaucoma. A trifocal divide a luz em três focos e, se o olho já é mais fraco, ele tem dificuldade de enxergar com menos luz e contraste. Na lente de foco estendido a luz não é dividida, e o olho tem mais facilidade para enxergar.
Quando o problema está em apenas um dos olhos, podemos combinar as lentes, com a trifocal em um olho e a de foco estendido no outro.
Para quem é indicada: para quem prioriza a qualidade da visão e aceita usar óculos em atividades pontuais, ou para quem tem alguma doença ocular que impede o uso da trifocal.
Lente trifocal: longe, meia distância e perto
A lente trifocal é o modelo mais recente das lentes multifocais. Ela divide a luz entre três distâncias: longe (dirigir, ver TV), meia distância (computador, cozinhar) e perto (ler, usar o celular). Os dois olhos trabalham juntos, sem necessidade de monovisão.
Estudos mostram que cerca de 98% dos pacientes ficam livres dos óculos para a maioria das atividades. Não é o mesmo que a visão dos 20 anos de idade, e uma pequena parcela pode precisar de óculos para tarefas específicas, como fazer as unhas bem perto do rosto.
Ela também corrige as aberrações da luz, tem versões tóricas para astigmatismo e apresenta menor risco de opacidade da cápsula posterior em comparação com as opções mais simples. A previsibilidade é alta: erros no cálculo são raros, mas podem acontecer em menos de 5% dos casos. Quando isso atrapalha a visão, é possível corrigir o grau restante com laser.
O que considerar antes de escolher:
- Halos à noite: nas primeiras semanas, é comum notar halos ao redor das luzes, como faróis de carros. Isso é normal e tende a diminuir ou sumir com a adaptação do cérebro, que leva de alguns dias a até 6 meses.
- Iluminação para ler: a leitura é sempre mais fácil em um local iluminado. É normal ter dificuldade em ambientes muito escuros.
- Saúde dos olhos: doenças na retina, na córnea ou glaucoma podem contraindicar essa lente.
Para quem é indicada: para quem deseja depender o mínimo possível dos óculos e não tem contraindicações.
Comparando as lentes para cirurgia de catarata
- Esférica: trata a catarata, sem objetivo de corrigir o grau. Óculos para a maioria das atividades.
- Asférica: melhor contraste e previsibilidade, com versão tórica. Com monovisão, reduz o uso de óculos no dia a dia.
- Foco estendido: boa visão para longe e meia distância, sem dividir a luz. Óculos para atividades pontuais de perto.
- Trifocal: foco para longe, meia distância e perto, com possibilidade de halos à noite durante a adaptação. Exige olhos sem contraindicações.
Como é feita a escolha e qual é a segurança da cirurgia
Não existe uma lente que sirva para todos. A escolha depende de exames detalhados, da saúde dos seus olhos, do seu estilo de vida e do que você espera da visão depois da cirurgia. Por isso, ela é sempre feita em conjunto entre médico e paciente.
A segurança é a mesma para todas as lentes: a chance de complicações fica em torno de 0,5% (cerca de 1 em cada 200 cirurgias), e a infecção é muito rara, com cerca de 1 caso em cada 10.000 cirurgias. Os cuidados depois da cirurgia estão no artigo Pós-operatório da cirurgia de catarata.
Sou oftalmologista com especialização em córnea e cirurgia de catarata, com mestrado, artigos científicos e capítulos de livros publicados, aulas em congressos da especialidade e mais de 1.000 cirurgias de catarata realizadas. Opero no Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, em Joinville, e discuto com cada paciente qual lente faz mais sentido para o seu caso.
Perguntas frequentes
A lente da cirurgia de catarata precisa ser trocada?
Não. A lente é definitiva, fica no olho para sempre e você não sente que ela está lá.
Existe uma lente melhor para todo mundo?
Não. A lente indicada depende dos exames, da saúde dos olhos e da sua rotina. Uma opção adequada para uma pessoa pode não ser para outra.
Qual lente corrige astigmatismo?
As lentes asféricas, de foco estendido e trifocais têm versões tóricas, que corrigem o astigmatismo. A lente esférica não corrige.
Quem tem glaucoma pode usar lente trifocal?
O glaucoma, assim como doenças na retina ou na córnea, pode contraindicar a lente trifocal, porque ela divide a luz. Nesses casos, a lente de foco estendido costuma ser uma alternativa. A avaliação é individual.
O que é a “limpeza da lente”?
É o tratamento a laser da opacidade da cápsula posterior, feito no consultório, sem necessidade de nova cirurgia.
Depois da cirurgia vou ficar livre dos óculos?
Depende da lente e do foco escolhidos. Com a lente esférica, o uso de óculos é esperado. Com as demais, a dependência pode diminuir, mas o resultado varia de pessoa para pessoa.
Conclusão
Todas as lentes tratam a catarata. O que muda é a qualidade da visão, a previsibilidade do grau e o quanto você vai depender dos óculos. A lente esférica é a mais simples, a asférica oferece melhor contraste, a de foco estendido favorece longe e meia distância, e a trifocal busca focar em todas as distâncias, desde que os olhos não tenham contraindicações. A melhor decisão é a que leva em conta os exames e a sua rotina, conversada com o seu oftalmologista.
Tem algum desses sintomas ou precisa de uma consulta oftalmológica? Entre em contato para o agendamento de uma consulta.
Opte sempre por profissionais qualificados e com experiência, a saúde dos seus olhos é um dos nossos bens mais preciosos.
Lembre-se: Este artigo visa informar o público e não substitui avaliação por médico oftalmologista, que é o único profissional capacitado para realizar o diagnóstico preciso e indicar o tratamento mais adequado para cada caso.
